Henri Langlois,o fantasma da Cinemateca
Não existe nenhum amante do cinema que não tenha algo que agradecer a Henri Langlois. Nenhum diretor que não lhe deva sua vocação. Jean Luc Godard
A história de Henri Langlois e a do cinema são predestinadas. Logo após a invenção da celulose, surgiu a necessidade de se preservar este material de forma adequada. Muitos filmes eram produzidos, o valor artístico deles era incalculável. Surgiu a necessidade de uma instituição capaz de mantê-la como patrimônio da humanidade. Langlois viveu sua vida disposto a isso, e a arriscá-la, por sua paixão voraz pelo cinema. Foi um pioneiro nessa visão, a da preservação — entre os cinéfilos, sempre será lembrado como “devemos tudo a ele”.
Antes da segunda guerra mundial, os estúdios franceses estavam entre um período de sucesso, até o colapso provocado pela pressão econômica. Era uma época onde os estúdios queimavam seus filmes aos montes, pela simples incapacidade de mantê-los — como também pela evidente ausência de expertise no embrionário campo da conservação de filmes. O cinema não era visto ainda como uma arte a ser preservada. Além disso, diante das guerras, os rolos de filme compostos por acetato de celulose eram artefatos extremamente sensíveis a bombardeios e a instabilidade social.
Na época, circulavam em Paris certas publicações periódicas dedicadas à cultura cinematográfica que chamavam atenção para a preservação dos filmes franceses , e dos estrangeiros que eram igualmente muito valorizados, como a filmografia russa, alemã e americana. Entre as publicações em torno do cinema que abordavam o assunto da preservação, a mais influente era o jornal "Pour Vous". Possivelmente, foi lendo esta revista, e os filmes nelas listados, como também dos debates ali sugeridos, da onde surgiu em Langlois a reflexão e a ação consequente perante a necessidade de se criar uma instituição voltada para preservação do arquivo nacional. No entanto, o próprio jornal abdicava da posição de ser o responsável pela causa, e Langlois assumiu praticamente sozinho essa missão. No começo dos anos 30, Langlois havia conhecido quem mais tarde seria um dos mais importantes diretores franceses, George Franju. Juntos, frequentavam regularmente uma sala emblemática de Paris, o Studio 28 em Montmartre. Foi uma época importante, com a descoberta do cinema de Luís Buñuel – Un chien andalou (1929), L’Age d’Or (1930), e o cinema surrealista, que toda vida admirou. Em 1935, com ajuda do teórico de cinema Jean Mitry, Langlois e seu grupo de amigos decidiram organizar suas próprias projeções; onde poderiam assistir aos filmes que mais admiravam, entre americanos, franceses e alemães que estavam fora do circuito comercial. Fundou em Champs-Élysée o primeiro cine clube de Paris, que se chamava Le Cinéma Fantastiqué. No começo era um grupo pequeno, porém apaixonado, que exercia sua devoção aos filmes em uma atmosfera relaxada e diferente do circuito, onde as projeções dos filmes tinham intervalos, enquanto as do seu cine clube eram ininterruptas. Com o passar do tempo, a atividade atraiu maior audiência, e passou a ganhar a atenção de personalidades como Jean Paul Sartre e André Gide. No ano seguinte, a ambição de Langlois havia crescido na mesma medida de seu cineclube, e ele passou, portanto, a não se conformar com tão só exibir filmes, se não que agora, encontra-se na posição de também preservá-los. Era uma paixão e uma necessidade ao mesmo tempo. Esta atividade nasce, a priori, da percepção visionária de Langlois sobre a necessidade implícita contida na própria matéria prima dos filmes. Além de catalogá-los para fins de exibição, era necessário criar uma estrutura onde se minimizasse a vulnerabilidade da película a ambientes impróprios para sua devida conservação. Esta estrutura foi inaugurada no dia 2 de setembro de 1936, data oficial em que Henry Langlois fundou a Cinemateca Francesa. Para isso, contava com a ajuda de Georges Franju, Jean Mitry e Paul-Auguste Harle. Eles passaram a receber os filmes diretamente dos estúdios, guardando e projetando muitos deles no apartamento de sua mãe. Os três juntos formaram uma espécie de organização onde Georges Franju era responsável pela programação, Mitry pela organização do acervo, enquanto Harle pelo financiamento. Nesses períodos iniciais da Cinemateca Francesa, a instituição ainda trabalhava no improviso, sem um endereço fixo onde os membros pudessem se encontrar. Neste começo, o apartamento de sua mãe era mesmo o principal ponto, e durante a ocupação alemã em Paris, era comum trocarem constantemente sua localização. Os nazistas faziam enormes pressões, através de mandatos que visavam a destruição de patrimônios culturais franceses. Muitos filmes e outras obras artísticas desapareceram por causa dos nazis de Hitler, os agentes da SS. Langlois lutou muito para defender os filmes que estava adquirindo, e foi nessa época que ainda ampliou sua coleção salvando filmes como Das Cabinet des Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, Jeanne d’Arc (1900) de Georges Méliès, La chute de la maison Usher (1928), de Jean Eipstein, The birth of a nation (1915), de D.W Griffith. O papel da Cinemateca era também de restaurar filmes, e foi nesse período que se criaram cópias para Intolerance (1926), de D.W. Griffith, Greed (1924) de Erich Von Stroheim. A garantia da preservação desses filmes retrata o heroico ato de Langlois, pois o destino de muitas dessas obras era realmente a destruição, na mão dos nazis. Como disse Godard, todos nós, os amantes do cinema temo algo que agradecer a Langlois por hoje, ao poder assisti-los.
Muitos dos filmes que Langlois adquiriu nessa época eram roubados ou contrabandeados, e enviados à Paris; isso incrementou e muito a necessidade de um espaço propício para armazená-los, já que o apartamento de sua mãe estava ficando pequeno. Em 1944 a coleção da Cinemateca acumulava 50,000 filmes! Langlois contava com a ajuda de muitas pessoas para escondê-los da SS. Não era só o cinema francês que estava em perigo, por isso também guardava relíquias dos Estados Unidos e da União Soviética. Em 1948, passado os conflitos da guerra, Langlois conseguiu dar um passo adiante e a Cinemateca se estabeleceu em seu primeiro endereço fixo, numa mansão, no número 7 da Avenida Messine, onde se localizava o Museu da Humanidade. O espaço era dedicado não só à restauração, mas também como ponto de pesquisa para universidades. A instituição começou a receber uma pequena ajuda do governo francês, mas o trabalho era feito, sobretudo, por voluntários. Sua sala, a Cercle Du Cinéma, ficou conhecida como uma autêntica escola de cinema. Langlois organizava projeções de Renoir, Vertov, Stroheim, Buñuel ou Pudovkin. Ali nasceram os que hoje se chamam ´ filhos da Cinemateca´, pois nessas sessões estavam espectadores como André Bazin, Jean Luc Godard, Françoise Truffault, Erich Rohmer, Jaques Rivette e Claude Chabrol. Langlois os educou numa atmosfera quase religiosa. Os então cineastas de vocação, eram frequentadores assíduos do local, ali descobriram os filmes do expressionismo alemão, o cinema noir de Haward Hawks, a John Ford e Alfred Hitchcock, que seriam mais tarde reivindicados nas páginas da Cahiers du Cinéma; para na década seguinte iniciar o movimento Nouvelle Vague. A sala seguiu suas atividades por 7 anos, porém Langlois sentiu falta de um espaço maior e transferiu a Cinemateca para Rue d’Ulm, atraindo os mesmos alunos e cineastas, fortalecendo ainda mais a cinefilia parisiense.
As relações de Langlois com o então ministro da Cultura André Malraux, eram um tanto conturbadas. No entanto há que se ressaltar que, mesmo que a personalidade Langlois sendo caótica e hiperativa, a desorganização da qual era acusado, tinha muito a ver com a falta de recursos da sua empreitada. Muitas latas de filmes foram deixadas no saguão da Cinemateca por falta de espaço, e se deterioraram. Langlois passou a ter uma relação mais áspera com o Estado francês, devido à falta de investimento público, enquanto o governo acusava-o de mau gestor. Em 12 fevereiro, Malraux iniciou um movimento para retirá-lo da diretoria da Cinemateca, uma decisão da qual iria muito se arrepender, pois acabariam por resultar nos acontecimentos do mês de maio. A decisão de destituir Langlois da diretoria da Cinemateca foi alvo de inúmeros protestos, até repercutir internacionalmente. O general de Gaulle recebeu cartas de mais de 1.500 cineastas e artistas de todo mundo, solicitando sua intervenção e até a cabeça de Malraux – que por sua vez se defendeu argumentando a ineficiência administrativa por parte do responsável pela cinemateca. A deterioração dos filmes, a falta de um catálogo ou índice para encontrá-los, e a desastrosa gestão financeira, eram o que Malraux acusava como problemas na vigente administração de Langlois. Em contrapartida, dia 16 de fevereiro foi formado o Comitê de Defesa da Cinemateca tendo Jean Renoir como presidente, e Truffaut e Godard como membros. Os protestos continuaram em abril, e o governo, querendo sair da situação, anuncia a criação de um órgão separado destinado à conservação de filmes, deixando a Cinemateca livre para seguir suas próprias políticas, mas também, por outro lado, livre do financiamento do Estado, que era de 1 milhão de francos. Os protestos foram um sucesso para unir os cineastas contra intervenções do governo no mundo do cinema, principalmente nos assuntos que envolviam o Centre National de la Cinématographie(CNC). Se por um lado foi um duro golpe contra a Langlois, por outro ele inclusive conseguiu se beneficiar dele, pois fora da França também encontrou apoio; e havia muitos interessados em escutá-lo. O corte no orçamento resultou em inúmeras dificuldades para continuar as atividades da Cinemateca. Para arrecadar fundos, Langlois começou a dar conferências em universidades do Canadá e dos Estados Unidos, e chegou a alcançar certa popularidade. Seu discurso provocativo, sempre contra o governo francês se espalhou para outros lugares, sendo solicitado por instituições do mundo todo. Em 1972 Langlois inaugurou um antigo sonho, o Musée du Cinéma. Seu prestígio lhe rendeu um Oscar honorário da Academia Americana de Cinema, em 1974.
Nos dias de hoje a Cinemateca conta com um acervo de mais de 40.000 filmes, e seu papel segue sendo os mesmos ideais de Langlois – o de preservar, e difundir a cultura cinematográfica mundial. As projeções ininterruptas contam com sessões diversas, através de retrospectivas e ciclos temáticos, que debatem o cinema como um todo. Chama atenção uma delas ser nomeada como Histoire Permanent du Cinéma, e seu caráter visando a constância de projeções do cinema feito em todos os lugares, todos os tempos. Langlois acreditava que a melhor maneira de conservar o cinema era exibindo-o. Desde a época do Cercle du Cinema e dos filhos da Cinemateca, era raro que um filme se repetisse – o programa é um cinema à deriva, que promove a pura cinefilia. O espaço conta também com o Musée du Cinéma, cuja o acervo dispõe de peças que vão desde os figurinos de Metrópolis, de Fritz Lang, aos de Marlyn Monroe, até objetos de cena de Laranja Mecânica. Henri Langlois faleceu no dia 17 de janeiro de 1977, na própria Cinemateca, enquanto organizava uma projeção.A história da Cinemateca Francesa remonta ao ano de 1936, quando foi fundada por dois apaixonados pelo cinema: Henri Langlois e Georges Franju. A instituição nasceu em Paris, França, com o objetivo de preservar e valorizar a história do cinema, algo inovador para a época, visto que a preservação cinematográfica não era uma preocupação predominante na indústria. Desde o início, Langlois e Franju se dedicaram a colecionar filmes raros e esquecidos, muitos dos quais estavam correndo o risco de serem perdidos para sempre devido à falta de cuidado na conservação dos materiais. Eles reconheceram a importância de preservar essas obras para as gerações futuras, a fim de garantir que o legado do cinema fosse respeitado e apreciado. Ao longo dos anos, a Cinemateca Francesa se tornou um local de referência para cinéfilos, estudantes e críticos interessados em explorar a história do cinema em toda sua diversidade. O acervo cresceu exponencialmente, abrangendo produções de diferentes países e épocas, desde o início do cinema mudo até as mais recentes inovações técnicas e artísticas.
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